Análise da Paisagem

Aula 20 — Diagnóstico Integrado: Pressões, Conflitos e Potencialidades
Curso de Geografia

Luiz Diego Vidal Santos

Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

2026-04-29

Visão Geral da Aula

Tópicos

  • 1 O que é um diagnóstico integrado
  • 2 Identificação de pressões e conflitos de uso
  • 3 Avaliação de vulnerabilidades
  • 4 Mapeamento de potencialidades
  • 5 Síntese interpretativa: o “estado da paisagem”
  • 6 Oficina: diagnóstico da área de estudo

Objetivo da Aula

Integrar todas as evidências acumuladas no dossiê para construir um diagnóstico integrado da paisagem: identificar pressões, conflitos de uso, vulnerabilidades e potencialidades, elaborando uma síntese interpretativa do estado atual da paisagem estudada.

1 — DIAGNÓSTICO INTEGRADO

Da análise à síntese

O que já temos

Camada Aula O que fornece
Localização e contexto 08 Onde? Em que bioma/bacia?
Cartografia temática 07–08 Relevo, drenagem, uso/cobertura
Interpretação visual 09 Feições, padrões, associações
Matriz de evidências 10 Componentes × atributos × fontes
Feições por SR 14 NDVI, NDWI, composições
Mudanças temporais 15–16 Trajetórias, transições
Métricas 17–18 Fragmentação, conectividade
Unidades de paisagem 19 Compartimentos funcionais

Agora: o diagnóstico

O diagnóstico integrado articula todas essas camadas para responder: qual o estado atual da paisagem, quais são seus problemas e oportunidades?

Diagnóstico ≠ descrição

Descrição Diagnóstico
“A área tem 19% de caatinga” “A cobertura nativa (19%) está abaixo do limiar de percolação, comprometendo a conectividade”
“Há 12 fragmentos” “Os 12 fragmentos pequenos e isolados indicam alto risco de extinção local”
“A pastagem ocupa 62%” “A matriz de pastagem com baixa produtividade sugere uso extensivo com potencial de intensificação e liberação de área para restauração”

Modelo DPSIR para organizar

Driving forces → Pressões → Estado → Impacto → Resposta
 (economia,      (desmata-   (paisagem  (perda bio,  (conservação,
  política,       mento,      atual:     erosão,      restauração,
  demografia)     erosão,     métricas,  assoreamento) zoneamento)
                  irrigação)  unidades)

2 — PRESSÕES E CONFLITOS

Identificação de pressões

Tipos de pressão na paisagem

Pressão Evidência Fonte
Desmatamento Redução de PLAND ao longo da série temporal MapBiomas, Aula 16
Fragmentação NP alto, MPS baixo, ENN alto Métricas, Aula 18
Erosão Solo exposto em encostas, cicatrizes Imagem, NDVI, campo
Sobrepastejo Pastagem com NDVI < 0,2, sinais de compactação Sentinel-2, Aula 14
Supressão de APP Mata ciliar < 30 m, ausência de vegetação ripária Interpretação visual, Aula 09
Expansão agrícola Aumento de área irrigada na série temporal MapBiomas transições
Urbanização Expansão do perímetro urbano Imagem multitemporal
Captação hídrica Açudes, pivôs, redução de vazão Hidrografia, campo

Como documentar

Para cada pressão: o quêondeevidênciaintensidadetendência

Conflitos de uso

Conflito ocorre quando o uso atual é incompatível com a aptidão ou com a legislação:

Conflito Situação Evidência
Uso em APP Pastagem/agricultura em margem de rio Mapa × legislação
Uso em encosta Agricultura em declive > 45° MDE × mapa de uso
Sobre-exploração Uso intensivo em solo frágil Tipo de solo × uso real
Competição hídrica Irrigação vs. abastecimento Outorga × captação
Expansão em remanescentes Conversão de vegetação nativa Transições MapBiomas

Mapa de conflitos

Cruzar no GIS: mapa de uso atual × mapa de aptidão ou restrição legal → áreas de concordância (uso adequado) e conflito (uso inadequado).

3 — VULNERABILIDADES

Avaliação de vulnerabilidades

Conceito (IPCC, adaptado)

\[Vulnerabilidade = f(Exposição, Sensibilidade, Capacidade\ Adaptativa)\]

  • Exposição: a quê a paisagem está exposta? (seca, erosão, fogo, conversão)
  • Sensibilidade: quão sensível é? (tipo de solo, declividade, cobertura)
  • Capacidade adaptativa: quão capaz de se recuperar? (resiliência, regeneração)

Escala qualitativa

Nível Critério
Muito alta Alta exposição + alta sensibilidade + baixa capacidade
Alta Combinação de 2 fatores desfavoráveis
Média Fatores equilibrados
Baixa Baixa exposição ou alta capacidade adaptativa
Muito baixa Área protegida, estável, resiliente

Exemplo por unidade de paisagem

UP Exposição Sensibilidade Capacidade Vulnerabilidade
UP-1 (Planície fluvial) Cheia, erosão Alta (solo aluvial) Baixa (sem mata ciliar) Muito alta
UP-2 (Encosta com caatinga) Desmatamento Média (caatinga resiliente) Média (remanescente) Média
UP-3 (Pediplano pastagem) Seca, compactação Média Baixa (solo degradado) Alta
UP-5 (Topo com caatinga) Fogo Baixa (acesso difícil) Alta (vegetação densa) Baixa
UP-8 (Áreas degradadas) Erosão ativa Muito alta Muito baixa Muito alta

A vulnerabilidade varia por unidade de paisagem — cada uma tem diagnóstico e resposta específicos.

4 — POTENCIALIDADES

Identificação de potenciais

Tipos de potencialidade

Potencialidade O que representa Exemplo
Ecológica Capacidade de suporte, biodiversidade Fragmento com alta riqueza
Hídrica Disponibilidade e qualidade Nascentes, recarga de aquífero
Produtiva Aptidão agropecuária sustentável Solo fértil com manejo adequado
Restauração Potencial de recuperação Área degradada próxima a fonte de propágulos
Conectividade Corredores potenciais APP como eixo de conexão
Cultural Uso tradicional, patrimônio Comunidade com saber local
Serviços ecossistêmicos Provisão, regulação, cultural Regulação hídrica, polinização

Articulação: vulnerabilidade × potencialidade

UP Vulnerabilidade Potencialidade Diretriz
UP-1 Muito alta Corredor ripário Restaurar APP + corredor
UP-3 Alta Intensificação produtiva Manejo de pastagem + liberar área
UP-5 Baixa Conservação + turismo Proteger (UC, APP, RPPN)
UP-8 Muito alta Restauração ecológica Retaludamento, NbS

Princípio

“O diagnóstico integrado não é uma lista de problemas. É uma leitura articulada de problemas E oportunidades, voltada à tomada de decisão.”

O dossiê deve terminar com diretrizes — não apenas com descrição de problemas.

5 — SÍNTESE INTERPRETATIVA

O “estado da paisagem”

Modelo de texto (para o dossiê)

1. Contexto e configuração atual (1 parágrafo)

  • Breve retomada da localização e configuração geral
  • Dados-chave: bioma, área, relevo, classes dominantes

2. Principais pressões e conflitos (1–2 parágrafos)

  • Pressões ativas (desmatamento, erosão, sobrepastejo)
  • Conflitos de uso (APP, encostas, recursos hídricos)
  • Tendências (série temporal: estável, degradante, recuperando?)

3. Vulnerabilidades críticas (1 parágrafo)

  • Unidades mais vulneráveis e por quê
  • Limiares que podem ser ultrapassados

4. Potencialidades e oportunidades (1 parágrafo)

  • Áreas prioritárias para conservação e restauração
  • Potencial de melhoria produtiva sustentável

5. Questões-chave para diretrizes (lista)

  • 3–5 questões que orientarão o zoneamento (Aula 21–22)

Exemplo de síntese

“A paisagem estudada apresenta configuração dominada por pastagem extensiva (62%) sobre pediplano do semiárido baiano, com 19% de cobertura nativa remanescente distribuída em 20 fragmentos isolados. A série temporal (1990–2022) evidencia perda de 38% da vegetação nativa, concentrada em áreas planas de fácil acesso.

As principais pressões são o sobrepastejo (NDVI < 0,2 em 40% da pastagem), a supressão de mata ciliar (largura média de 15 m, metade da APP legal) e a erosão ativa em 6% da área. Conflitos de uso concentram-se na planície fluvial (UP-1) e nas encostas com declive > 20% (UP-2).

A vulnerabilidade é muito alta na planície fluvial e nas áreas degradadas (UP-8), onde a capacidade de recuperação está comprometida. Por outro lado, os topos de serra (UP-5) apresentam baixa vulnerabilidade e alto potencial de conservação, enquanto a restauração de APP ao longo do rio principal pode funcionar como corredor ecológico.

Questões-chave: (1) Como conectar fragmentos isolados? (2) Que áreas de pastagem podem ser liberadas para restauração? (3) Como conciliar irrigação e disponibilidade hídrica?“

6 — OFICINA

Atividade: diagnóstico da área de estudo

Roteiro (50 min)

  1. Reunir evidências (10 min)
    • Consultar todos os produtos das aulas anteriores
    • Organizar por unidade de paisagem
  2. Identificar pressões e conflitos (10 min)
    • Listar pelo menos 3 pressões com evidência
    • Identificar pelo menos 2 conflitos de uso
  3. Avaliar vulnerabilidades (10 min)
    • Para cada UP: exposição × sensibilidade × capacidade
    • Classificar em escala qualitativa
  4. Mapear potencialidades (10 min)
    • Identificar pelo menos 2 potencialidades por UP
    • Indicar tipo (ecológica, hídrica, produtiva…)
  5. Redigir síntese (10 min)
    • Seguindo modelo de 5 partes
    • Foco em articulação, não em extensão

Entrega

  • Quadro de pressões/conflitos (com evidências)
  • Tabela de vulnerabilidades por UP
  • Lista de potencialidades por UP
  • Texto de síntese (3–5 parágrafos)

Formato: documento digital Prazo: até Aula 21 (06/05)

Próximas aulas

  • Aula 21 (06/05): Planejamento territorial — diretrizes e prioridades
  • Aula 22 (06/05): Zoneamentos aplicados — exercício de proposição

Síntese da Aula 20

O que vimos hoje

  1. Diagnóstico integrado — articular todas as camadas de evidência para avaliar o “estado da paisagem”
  2. Pressões — desmatamento, erosão, sobrepastejo, supressão de APP, expansão agrícola
  3. Conflitos de uso — uso atual vs. aptidão / legislação
  4. Vulnerabilidades — exposição × sensibilidade × capacidade adaptativa, por UP
  5. Potencialidades — ecológica, hídrica, produtiva, restauração, conectividade
  6. Síntese interpretativa — contexto + pressões + vulnerabilidades + potencialidades + questões-chave

Obrigado!

Luiz Diego Vidal Santos

Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

Análise da Paisagem — Aula 20